Carlos Tavares, Paixão Automóvel

Carlos Tavares, Paixão Automóvel

perfilO português Carlos Tavares cumpre em 2014 o sonho de liderar um grande fabricante de automóveis mundial. Novo CEO da PSA Peugeot Citroën, Tavares assume o desafio de voltar a colocar a PSA numa pole-position

“Quem é apaixonado pela indústria automóvel chega à conclusão, a um dado ponto, que tem a energia e apetite para um lugar de número um”. A frase, dita por Carlos Tavares em entrevista à Bloomberg, em agosto do ano passado, foi a ignição para uma mudança de rumo que conduziu o português à desejada liderança de uma grande construtora automóvel mundial.

Artiggo Gratis CEO LusofonoSem espaço para cumprir num futuro imediato essa ambição na Renault – onde tinha chegado há 31 anos como piloto de testes e era já o número dois, responsável pela área operacional – Carlos Tavares deixou o cargo de COO do grupo liderado pelo brasileiro Carlos Ghosn e no final de 2013 foi anunciado como CEO do Grupo PSA Peugeot Citroën.

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Na entrevista à Bloomberg, Tavares deu a entender que a sua ambição pessoal de liderar a marca francesa Renault não lhe ia permitir esperar os anos que achava que Ghosn iria ainda passar à frente da Renault. “Temos um grande líder que está aqui para ficar”, afirmou.

Depois da saída da Renault a liderança da Ford ou da GM foram as possibilidades mais faladas, mas Tavares sabia que quer Alan Mulally (CEO da Ford), de 68 anos, quer Daniel Akerson (CEO GM), de 64 anos, ainda não tinham acabado os seus mandatos. Carlos Tavares não precisou, no entanto, de atravessar o Atlântico e é no mesmo país onde tem trabalhado nos últimos anos que atinge o topo da hierarquia de um grupo automóvel.

Desafio de liderar a Peugeot Citroën

A nova etapa profissional de Carlos Tavares no Grupo PSA Peugeot Citroën começou no início de 2014, com o português a tomar posse no Conselho de Administração do Grupo, antes de assumir a posição de CEO, em substituição de Philippe Varin, que se vai reformar.

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Carlos Tavares irá “trabalhar nos planos de ação que visam continuar o processo de recuperação do grupo” e, nas palavras de Thierry Peugeot, presidente do Conselho de Supervisão e um dos responsáveis da família que controla 25,5% do capital da empresa, a escolha do gestor português para liderar o Grupo PSA “assegura que a estratégia de recuperação e desenvolvimento para superar a atual crise, que tem vindo a ser implementada há vários anos, continuará a ser executada no longo prazo”. Uma escolha que representa uma quebra na tradição nos 117 anos de história da companhia, que sempre foi buscar o líder aos quadros internos.

Na Peugeot Citröen, Carlos Tavares enfrenta dois grandes desafios: aumentar as vendas da construtora francesa fora da Europa (região responsável por 50% da atual faturação e onde a recessão económica provocou uma quebra nas vendas); levar a bom porto as mudanças com a entrada no capital da empresa da construtora chinesa Dongfeng e do Estado francês, que já confirmaram que vão adquirir cada um 20% da PSA por 3 mil milhões de euros.

A tarefa de Tavares não será fácil, uma vez que a companhia francesa passa por uma crise financeira que está a afetar todo o setor automóvel mundial.

Na fase de transição, Varin, 61 anos, conduziu as negociações para a parceira com a chinesa Dongfeng. Mas Carlos Tavares é considerado o gestor com melhor perfil para gerir a PSA com capitais chineses.

Percurso

Carlos Tavares nasceu em Lisboa, a 14 de Agosto de 1958, e frequentou o Liceu Francês antes de emigrar com 17 anos para França. Passou pelo Lycée Pierre de Fermat e depois pela École Centrale de Paris, onde em 1981 se formou em engenharia mecânica, entrando nesse ano para a Renault como engenheiro de testes.

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Na Renault, onde esteve 32 anos, consolidou uma carreira que o coloca hoje entre os gestores de topo da indústria automóvel.

Apaixonado pela engenharia automóvel, Tavares não tardou a ganhar reputação. Dez anos depois de ter entrado no grupo francês foi responsável pelo Clio II e, em 1998, líder do projeto Mégane e Scénic II.

A partir daí a sua ascensão foi vertiginosa, graças aos profundos conhecimentos, à paixão com que se entregava ao trabalho (nos anos mais recentes, apesar do cargo de topo que ocupava, era comum vê-lo nos departamentos de engenharia da marca em conversas animadas com os engenheiros) e à reconhecida capacidade de liderar e motivar as equipas, caraterísticas que, depois de somadas, lhe mereceram o respeito de todos.

Tavares foi vice-presidente de estratégia de produto e planeamento, funções de que abdicou em 2005 para se tornar no vice-presidente executivo da Nissan. Quatro anos depois era responsável pela Nissan América do Norte e aplaudido por ter invertido um ano de prejuízo num lucro de 2200 milhões de dólares. Os bons resultados alcançados, quando a Nissan enfrentava dificuldades no resto do Mundo, terão sido, apenas, um dos fatores que levaram Carlos Ghosn a colocá-lo em Tóquio para liderar a reconversão da marca japonesa, com resultados que estão à vista.

Foi, por isso, natural a chegada de Tavares a número dois da organização, em Fevereiro de 2009. Como Chefe de Operações (COO) tinha direta responsabilidade sobre todas as áreas estratégicas para a Renault, com destaque para o projeto dos automóveis elétricos, a reestruturação industrial e o desenvolvimento dos novos modelos.

Enquanto número dois da Renault Tavares alcançou um enorme estatuto no setor e, prova da sua capacidade, pouco mais de duas semanas após a sua saída, Carlos Ghosn anunciou um plano de reestruturação em que promoveu dois executivos para desempenhar as funções do português, suprimindo a posição de Chefe Operacional.

Apaixonado pelo mundo automóvel

“Poliglota”, “apaixonado pelo mundo automóvel”, “austero” e “extremamente rigoroso”. Foi assim que o jornal económico francês “La Tribune” classificou Carlos Tavares quando este foi escolhido, em Maio de 2011, para braço-direito de Ghosn na Renault.

A paixão de Carlos Tavares pelos automóveis e pelas corridas levou a que fosse apelidado de “car guy”. Na Renault tripulou alguns carros históricos da marca, mesmo quando esteve na liderança da Nissan nos EUA.

Mesmo do outro lado do Atlântico, o homem que tinha entrado para a Renault como piloto de testes nunca abandonou a paixão pelas corridas e era frequente tomar um avião ao início da noite de uma sexta-feira para concorrer pela sua equipa em provas desportivas na Europa. Na manhã de segunda-feira, estava sentado na secretária do seu gabinete.

Agora, na PSA, também com forte tradição nas corridas automóveis, terá não só a oportunidade de certamente pilotar os carros das marcas Peugeot e Citröen, mas sobretudo a ambicionada oportunidade de conduzir em lugar de liderança os destinos de uma grande construtora automóvel mundial.