Carlos Lopes – Unir nações, desenvolver África

Carlos Lopes – Unir nações, desenvolver África

perfil

 

 

Único lusófono entre os “100 africanos mais influentes” em 2013, o bissau-guineense Carlos Lopes lidera a Comissão Económica das Nações Unidas para África

 

 

Artiggo Gratis CEO Lusofono

Quando em dezembro de 2013 a “New African Magazine” anunciou a lista anual dos “100 africanos mais influentes”, o único nome oriundo dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) incluído na lista foi o do Secretário Executivo da Comissão Económica das Nações Unidas para África (UNECA), Carlos Lopes.

Sobre o bissau-guinneense, que assumiu, em março de 2012, a liderança daquela que é uma das cinco comissões regionais da ONU, tornando-se assim o africano-lusófono a alcançar o cargo de maior destaque na instituição, a revista destacava a “abordagem intelectual e pragmática para a resolução de problemas” e o fato de ter garantido que “a instituição se tenha tornado um pilar fundamental nas políticas de desenvolvimento de África” e ser um responsável cujos “pontos de vista sobre a política africana são solicitados por muitos líderes, dentro e fora do continente”.

carloslopes2Carlos Lopes diz que a influência que pretende ter, como exercício concreto, ao liderar a Comissão Económica das Nações Unidas para África, “é a de transformar esta Comissão no think tank de referência para o continente. Quando os Estados-membros da União Africana solicitam à UNECA para com eles pensar em políticas de desenvolvimento económico para os seus países – aí, sim, podemos falar de influência. Se ser influente tiver este significado, então sinto-me verdadeiramente honrado”, salienta, num artigo publicado no jornal cabo-verdiano “Expresso das Ilhas”.

Recorde-se que Carlos Lopes foi convidado pela União Africana para moderar o debate sobre o futuro de África com todos os Chefes de Estado do continente, em maio de 2013.

Carreira na ONU

Bissau-guineense, filho de cabo-verdianos da ilha do Fogo, ao longo da sua carreira, Lopes foi responsável pela criação de diversas instituições e redes africanas, incluindo o famoso instituto de pesquisa da Guiné Bissau, destruído pela guerra de 1998.

Considerado um especialista de reformas e desenvolvimento institucional, esteve sempre associado a grandes processos de reforma no sistema das Nações Unidas, onde entrou há 26 anos.

carloslopes

A carreira de Carlos Lopes na Nações Unidas começou em 1988, já depois de uma passagem pelo Instituto Nórdico de Estudos Africanos. Na altura, trabalhava no setor público no país natal, Guiné–Bissau, e integrou o Programa da ONU para o Desenvolvimento, PNUD, como economista de desenvolvimento.

Dentro do PNUD, dirigiu um portfólio de projetos que ascendeu a mil milhões de dólares, tendo passado pelo Zimbabwe, Estados Unidos e Brasil, onde, em 2003, se tornou o Coordenador Residente da ONU e Representante Residente do PNUD, que tinha no país o maior programa mundial, na altura.

Sob a liderança de Kofi Annan, foi Assistente do Secretário-geral e Diretor de Assuntos Políticos no Escritório Executivo do Secretário-Geral e, desde 2006, tem o nível de Sub-Secretário Geral da ONU.

Em 2007, assumiu o cargo de diretor-executivo do Instituto de Formação e Pesquisa da ONU, Unitar, em Genebra, Suíça, e, no mesmo ano, já com Ban Ki-moon a liderar a ONU, tornou-se também Diretor do UN Staff College, localizado em Turim, Itália.

Artífice da implantação dos sofisticados programas de Knowledge Systems do PNUD a nível mundial, liderou também a reflexão sobre reforço de capacidades, incluindo a co-organização do livro de referência “Capacity for Development”, que contou com a contribuição do Prémio Nobel da Economia Joseph Stiglitz.

O prestígio que alcançou leva a que seja muito solicitado para funções diretivas. Faz atualmente parte de doze órgãos de direção, incluindo a presidência do Conselho Geral do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, e é organizador de vários fóruns de alto nível, nomeadamente os Encontros Mundiais de Genebra.

Percurso académico

Doutor em História pela Universidade de Paris 1 Panthéon-Sorbonne (onde tinha já feito a licenciatura), mestre em Desenvolvimento Económico e Social em África pelo Instituto Graduado de Genebra de Estudos Internacionais e Desenvolvimento, recebeu também um Doutoramento Honoris Causa em Ciências Sociais, da Universidade Cândido Mendes, do Rio de Janeiro.

Carlos Lopes tem dado um grande contributo para a pesquisa de temas na área do desenvolvimento, ajudando à criação de várias ONG e centros de pesquisa social, particularmente em África, sendo também membro da Academia de Ciências de Lisboa.

Com mais de 20 livros editados e cerca de 180 artigos académicos, além de fazer parte de comités editoriais de várias revistas académicas, foi ainda o impulsionador do primeiro “Relatório de Desenvolvimento Humano da África Austral”, que contou com um prefácio de Nelson Mandela. E, como professor, passou já por inúmeras universidades e instituições académicas de cidades como Lisboa, Coimbra, Zurique, Cidade do México, São Paulo e Rio de Janeiro.

carloslopes3

“Este é o momento de África”

Além do muito que aqui registamos, muito mais poderíamos detalhar sobre o percurso notável de Carlos Lopes. Mas voltemos ao presente e ao enorme desafio que enfrenta de ajudar a concretizar o desenvolvimento de África.

Um desafio que bem sintetizou ao afirmar: “Tenho consciência de que este é o momento de África, mas precisa de ser pensado de forma estratégica. É verdade que o continente apresenta uma taxa de crescimento económico favorável, mas é imperativo que esse crescimento se traduza numa transformação estrutural do PIB: industrialização e criação de empregos que respondam às necessidades da ascendente curva demográfica a que ora assistimos”.

Sobre o cargo de liderança da UNECA, Carlos Lopes confessa o fato de se sentir “particularmente feliz”, porque gosta “de pensar África e sobre África” e, particularmente, de poder concretizar o que pensa em ações. Sempre “com pés bem assentes na terra”, uma expressão que simboliza o que tenta transmitir, assertivamente, a todos os que consigo trabalham: “é bom quando quem nos rodeia nos acarinha e elogia o trabalho que fazemos, mas melhor ainda é quando mantemos a humildade – que se traduz numa sede constante de conhecimento e de aperfeiçoamento, que contagie quem connosco convive – e a fidelidade ao que somos, ao lugar de onde viemos. Esse lugar pode ser um país, os nossos amigos, a nossa família…”. E é, no caso de Carlos Lopes, seguramente África.