“Gostava de vos contar a minha história, o meu percurso, falar-vos das minhas motivações para
continuar a caminhar. Muito jovem iniciei esta 
tarefa que é o trabalho”

“Gostava de vos contar a minha história, o meu percurso, falar-vos das minhas motivações para continuar a caminhar. Muito jovem iniciei esta tarefa que é o trabalho”

Rui Nabeiro: A Lenda do Café

Artiggo Gratis CEO Lusofono

Rui Nabeiro é uma figura incontornável da gestão empresarial lusófona. Considerado o presidente com melhor reputação em Portugal, criou aos 30 anos, em Campo Maior, a Delta Cafés, hoje um grupo com inúmeras empresas de sucesso em Portugal, Espanha, Brasil e Angola, entre 35 países

“Gostava de vos contar a minha história, o meu percurso, falar-vos das minhas motivações para continuar a caminhar. Muito jovem iniciei esta tarefa que é o trabalho”.

As palavras são Rui Nabeiro, num discurso feito, há dois anos, durante uma das muitas homenagens de que já foi alvo.

Já muito se escreveu sobre o Comendador Rui Nabeiro, mas nada como ouvir na primeira pessoa, o percurso de vida do presidente e fundador do Grupo Nabeiro/Delta Cafés:

“Nasci, como sabem, em Campo Maior, e sou oriundo de uma família de poucos recursos. A vida não era fácil naquela altura e eu e os meus irmãos fomos obrigados a crescer muito depressa. O tempo que as crianças e os jovens de hoje passam nas escolas, no meu caso, foi passado na mercearia da minha mãe, ajudando-a, levando e trazendo encomendas aos clientes. O meu pai ganhava pouco e a mercearia era uma grande ajuda. Posso dizer-vos que nasci, cresci e vivo para o comércio. Hoje tenho a certeza que foi a mercearia da minha mãe que ditou a minha vocação de empresário”…

“Nasci, cresci e vivo para o comércio”

perfilnabeiro2Com pouco mais de 13 anos, deu o “salto” da mercearia para começar a trabalhar com o pai e tios numa pequena torrefação de café em Campo Maior.

Com o desaparecimento prematuro do pai, em 1950, iniciou, aos 17 anos, o percurso de empreendedor e, com os tios, criou a Torrefação Camelo, com uma forte aposta no mercado espanhol, onde a marca de café Camelo é, ainda hoje, uma referência nas províncias espanholas da Extremadura e Andaluzia.

Aos 30 anos, deu o grande passo. Decidiu criar a própria empresa, a Delta Cafés. “Tudo começou com apenas 3 colaboradores… Hoje somos 3000 profissionais”, salienta Rui Nabeiro.

“Os primeiros tempos foram difíceis”, lembra. “A falta de meios próprios para assegurar a cobertura do mercado exigiu muito trabalho, método, disciplina e grandes doses de sentido de oportunidade. Houve momentos decisivos. Momentos em que foi necessário manter a frieza e o sentido prático para garantir o crescimento da Delta”.

“No início não conseguia vender 1 kg de café”

“Vender era complicado. No início não conseguia vender 1 kg de café. Mas a imaginação ajudou-me e comecei por vender as cevadas, que era o produto que o povo conseguia adquirir. Foram anos vividos com muita intensidade”, lembra.

A 25 de abril de 1974, Portugal perde a grande influência que mantinha no comércio com as colónias. E a matéria-prima de que a empresa necessitava para trabalhar existia em Angola, sendo a grande dificuldade fazer chegar o café a Portugal.

“Mais uma vez, com experiência acumulada e muita criatividade, atingimos esse objetivo. Foi o tudo ou nada. Fretei um navio e rumei a Luanda. Optei por levar todo o café para Campo Maior para ser transformado pela Delta”… E ganhou a  aposta…

Expansão do negócio

A segunda metade da década de 70 e os anos 80 revelar-se-iam de grande expansão do negócio, com a Delta a ganhar a liderança do mercado de cafés no canal da restauração, sob o lema “fazer de cada cliente um amigo e de cada amigo um cliente”. Mas do exterior chega também o reconhecimento que confirma o sucesso da empresa, que, ao longo dos anos, soube abrir novas portas de negócio e quebrar fronteiras, tendo na vizinha Espanha um cliente estratégico e um parceiro natural.

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Rui Nabeiro é o rosto desse sucesso e acumulou um enorme prestígio em Portugal, com uma dimensão muito especial em Campo Maior, a sua terra, onde, em 1972, assumiu o cargo de Presidente da Câmara, a que voltou em 1977 para um mandato de nove anos.

A partir da 2.ª metade dos anos 70, a estrutura comercial da Delta Cafés consolidou-se de forma decisiva, o que originou, em 1984, a separação da atividade comercial, assegurada pela empresa Manuel Rui Azinhais Nabeiro, da atividade industrial desenvolvida pela Nova Delta S.A.

O surgimento de novos negócios, a necessidade de desenvolvimento de novos produtos e a exigência crescente da prestação de um serviço global, alargado a áreas complementares ao café, implicaram o redesenho do negócio que culminou, em 1998, na criação do Grupo Nabeiro/Delta Cafés.

Hoje a pequena Delta, então instalada numa área de reduzidas dimensões – onde ainda hoje está a sede principal da empresa, no centro de Campo Maior –, com apenas três empregados (reformados que tinham na atividade um complemento) e uma capacidade de produção diária de café que não chegava aos 30 quilos, é o gigante empresarial Grupo Nabeiro – Delta Cafés (25 empresas, distribuídas por vários setores), líder no mercado do café em Portugal há décadas e com uma posição relevante em Espanha.

O produto por excelência continua a ser o café, mas a atividade empresarial de Rui Nabeiro alargou-se à hotelaria, imobiliário, comércio diverso, serviços e, no ramo alimentar, o grupo passou a produzir vinho e chá.

Brasil e Angola entre as maiores apostas

Se, no início, a internacionalização se fez com o salto da fronteira com Espanha, a Delta soube aproveitar o movimento da diáspora e os seus cafés começaram a ser consumidos, na década de 80, na Bélgica, França, Luxemburgo, Reino Unido, Alemanha, Canadá e por todo o mundo onde havia portugueses.

Agora, a Delta está em 35 países, com Brasil e Angola entre as maiores apostas do Grupo Nabeiro para os próximos anos. E as exportações representam 25% do volume de negócios.

No Brasil, a empresa instalou já quiosques de café em centros comerciais e, em Angola, foi criada uma empresa própria, a Angonabeiro, em parceria com capitais estatais, para produzir e comercializar café, que, com duas marcas, a Ginga (recuperação da marca angolana) e, claro, a Delta, é já líder no mercado de cafés torrados.

Pés bem assentes na terra

Rui Nabeiro e a Delta são indissociáveis da cidade onde nasceram, Campo Maior: “Sempre tive como primordial objetivo a aposta, permanente, na minha terra, nas suas gentes e na minha região”.

Os mais de 1500 trabalhadores do grupo fixados na vila alentejana constituem quase dois terços da população ativa do concelho, com famílias inteiras a trabalhar na empresa, como é quase aliás o caso dos Nabeiro, com três gerações envolvidas no negócio familiar.

Dois exemplos: o neto Rui Miguel Nabeiro, hoje CEO do Grupo Delta, e a neta Rita Nabeiro, designer gráfica, responsável pela imagem da Adega Mayor, a aposta do grupo nos vinhos. Já a mulher de Rui Nabeiro, Alice, lidera a associação “Um Coração Chamado Delta”, que coloca em prática a forte aposta da empresa na responsabilidade social.

“Um Café por Timor”, em 2002, foi uma das iniciativas mais mediáticas da empresa – por cada embalagem de Café Delta Timor 250g produzida, 0,25 euros seguiam para o país que acabara de conquistar a independência.

A campanha permitiu apoiar a população de Timor Leste e equipar escolas primárias no território. Tornou também a Delta a primeira empresa portuguesa a conseguir a certificação em Responsabilidade Social. Uma responsabilidade que começa com os trabalhadores do grupo.

A evolução das empresas do Grupo Nabeiro tem sido, desde sempre, apoiada nos valores do seu fundador, reconhecidamente um líder que aposta na autenticidade das relações com todas as partes interessadas do negócio, e num modelo de trabalho que, numa frase, se torna claro: “Eu não trabalho para mim, nem quem trabalha para mim trabalha para eles próprios, nós trabalhamos uns para os outros”.

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