António Monteiro: O diplomata que não gosta de mundos fechados

António Monteiro: O diplomata que não gosta de mundos fechados

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“Não gosto de mundos fechados. Gosto de conhecer pessoas e lugares e de desvendar as nossas raízes. Juntar ao que nós temos aquilo que os outros têm”. As palavras são de António Monteiro, durante quatro décadas (entre 1968 e 2009) um do principais rostos da diplomacia portuguesa e, hoje, Chairman do Millennium BCP, maior banco privado português

Nascido há 70 anos em Bié, interior de Angola, António Monteiro veio para Portugal com apenas quinze anos.

Fez o liceu, estudou Direito na Universidade de Lisboa, e quando teve de decidir o rumo a seguir, não teve dúvidas: quis ser diplomata, “uma vocação”, com “a curiosidade em relação às pessoas e àquilo que elas constroem pelo mundo” a ser uma das razões fundamentais para essa escolha.

António Monteiro3Durante o curso de Direito, percebeu que se interessava mais por relações internacionais e ciências políticas do que pela matéria jurídica e desse interesse nasceu uma das mais notáveis e notadas carreiras da diplomacia portuguesa.

Ingressou no Ministério dos Negócios Estrangeiros português em 1968 e a primeira missão levou-o, em 1971, de regresso a África. Como Secretário da Embaixada em Kinshasa, hoje, capital da República Democrática do Congo, teve por objetivo tentar restabelecer laços com países africanos, pois, na altura, praticamente todos os Estados do continente estavam de relações cortadas com Portugal, por causa da guerra colonial. Aliás, para que melhor se perceba o desafio dessa primeira missão, oficialmente António Monteiro estava integrado na Embaixada de Espanha.

Cinco anos de trabalho árduo, mas bem sucedido, em Kinshasa lançaram-no numa carreira em que, entre muitos outros cargos de relevo, foi ministro dos Negócios Estrangeiros, presidente do Conselho de Segurança da ONU, embaixador de Portugal em França, representante da FAO (Food and Agriculture Organization), membro da delegação que mediou as negociações para os acordos de paz em Angola ou ainda representante de Portugal junto do conselho da Agência Espacial Europeia.

Momentos marcantes

Com tão vasta experiência, nada melhor que ser o próprio a dar conta dos momentos mais marcantes da vasta carreira diplomática. Quando lhe fazem essa pergunta destaca, desde logo, “o 25 de Abril e a mudança de uma diplomacia sobretudo defensiva e cada vez mais fechada ao mundo para uma dinâmica de abertura ao mundo”.

Em Angola, país natal, teve papel decisivo na mediação das negociações para os Acordos de Paz, no início da década de 90, assinados pela UNITA e pelo governo de Angola, assumindo depois, em 1994, o cargo de Diretor-Geral de Política Externa de Portugal, numa altura em que entrou em vigor o Tratado de Maastricht, com todos os de safios que essa mudança europeia colocou no novo cargo.

Mais tarde, estar dois anos (1997 e 98) no Conselho de Segurança da ONU e exercer duas vezes a presidência permitiu-lhe medir quanto um país como Portugal pode ter um papel positivo e influente a nível internacional, com destaque para a questão de Timor, “um processo em várias etapas em que Portugal conseguiu juntar aos princípios uma singular solidariedade a favor de um país e de um povo com os quais nos unem laços únicos de amizade”, salienta.

Por fim, António Monteiro tem destacado o cargo de Embaixador em Paris, que acumulou com o de representante de Portugal junto do conselho da Agência Espacial Europeia. Este permitiu-lhe “comprovar, na prática, a noção de que onde há portugueses há Portugal”.

Não é acaso que depois de deixar França, para, entre 2004 e 2005, assumir o desafio de ser Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal e também a missão de Alto Comissário da ONU para as Eleições da Costa do Marfim, tenha voltado a Paris, em 2006, para fechar três anos depois um ciclo na sua riquíssima carreira e assumir o cargo de vogal no conselho geral e de supervisão do Millennium BCP.

No entanto, apesar de ter fechado esse ciclo, o reconhecimento da influência diplomática de António Monteiro permaneceu ativo. E, em 2010, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, escolheu-o para integrar o painel que monitorizou os referendos sobre a divisão do Sudão.

“Não há donos da língua”

Com um percurso de vida que o levou a todos os cantos do mundo, António Monteiro está, no entanto, intimamente ligado ao continente africano, sendo a África que fala português que mais o apaixona. Angola, por razões óbvias, depois Moçambique, São Tomé, Cabo Verde.

E, tal como não gosta de mundos fechados, António Monteiro tem a opinião de que “não há donos da língua e o português só ganha em ser percebido como uma língua que é de todos e de cada um
que a utiliza. O português tem novas possibilidades de se impor, porque é um instrumento de trabalho e é essencial para entrar em certos mercados. Temos uma língua que tem poder à escala mundial”.

Liderança do Millennium BCP

António Monteiro2Essa mesma ideia, do poder da língua portuguesa, é um dos motores da liderança que hoje, a par do CEO Nuno Amado, tem no maior banco privado português, o Millennium BCP (onde chegou em 2009) e que é hoje um dos exemplos máximos de parceria entre Portugal e Angola.

A instituição entrou desde 2012 num novo ciclo, marcado por um Plano de Restruturação e mudança do modelo de governação em que os acionistas angolanos são a principal referência, em particular a Sonangol, maior acionista do banco português.

Sendo o presidente empresarial português que melhor conhece Angola, não é por acaso que foi o escolhido para, no novo ciclo alicerçado nos acionistas angolanos, ser presidente do conselho de administração do Millennium BCP, depois de ter sido líder do conselho geral e de supervisão.

Com fortes ligações profissionais à Sonangol (via petrolífera SOCO International), Banco Atlântico (de que é membro do conselho de administração) e Inter Oceânico (de que é acionista), António Monteiro tem, com Nuno Amado, o desafio de concretizar o Plano de Restruturação do grupo, em particular a crescente eficiência da operação em Portugal, e continuar a trabalhar no desenvolvimento e aumento da rendibilidade das operações internacionais core (Polónia, Angola e Moçambique).

A experiência de António Monteiro é uma vantagem decisiva para posicionar a instituição como referência nas economias onde atua e para o preconizado reforço da posição do maior banco privado português nos países lusófonos, em particular em Angola e Moçam bique (onde é já líder).


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