Murade Murargy: Dar mais energia às pontes lusófonas

Murade Murargy: Dar mais energia às pontes lusófonas

Artiggo Gratis CEO LusofonoFalámos de Energia com Murade Murargy, num sentido amplo. Do potencial energético da CPLP, da energia que o Secretário Executivo tem oferecido, desde 2012, ao cargo e da energia conjunta que é fundamental para reforçar e criar pontes de cooperação já assentes em sólidos pilares, mas a precisarem de ganhar novo dinamismo e da nova visão estratégica que está a ser preparada para transformar o potencial na potência CPLP

“Eu sou muito ambicioso. Quando vim para cá não estava totalmente convencido da importância estratégica desta organização ou do impacto que pudesse ter não só nos nossos países, mas no plano global. Essa importância é, de fato, enorme”, revela Murade Murargy.

O assumir da liderança da CPLP foi para o embaixador moçambicano um regresso a Portugal, onde tinha feito a licenciatura em Direito, na Faculdade de Direito de Lisboa. Depois dos estudos, ingressou, em 1976, no Ministério dos Negócios Estrangeiros de Moçambique como Conselheiro Jurídico no Gabinete de Estudos, Planificação e Informações até 1980. Nesse ano, assumiu o cargo de Diretor para Assuntos Jurídicos e Diretor Nacional de Protocolo, sendo, em 1984, empossado Diretor das Organizações Internacionais e Conferências. Nesse mesmo ano, iniciou a carreira diplomática ao ser nomeado Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário na República Francesa e não Residente na República Federal da Alemanha, Confederação Suíça, República da Tunísia, do Gabão, do Mali, da Costa do Marfim, do Senegal, República Islâmica do Irão e da Palestina.

Layout 1Em França, assumiu ainda os cargos de Delegado Permanente junto à UNESCO, em Paris, e como Representante Permanente junto das Nações Unidas (ONU), em Genebra, permanecendo nestas funções até 1995, ano em que aceitou o desafio de regressar a Moçambique para, nos dez anos seguintes, ocupar o cargo de Secretário-Geral da Presidência da República de Moçambique com estatuto de Ministro de Estado.

Em 2006, torna-se Embaixador no Brasil, Argentina, Chile Paraguai, Uruguai e Venezuela e seis anos depois chega ao cargo de Secretário Executivo da CPLP, onde deu continuidade ao “excelente trabalho que tinha sido já feito por cada um dos anteriores responsáveis pelo cargo” e emprestou a sua energia a novos desafios.

“Eu cheguei e encontrei excelentes condições que tenho de valorizar, pois me permitiram ter uma base sólida para desenvolver este meu trabalho de promover o desenvolvimento de uma agenda comum em diferentes vetores. A criação de uma nova visão estratégica para a CPLP, que vá além da língua ou da concertação politico-diplomática, salienta Murade Murargy.

“Quando construímos uma ponte ela tem de ter pilares, mas tem de ter dinamismo. A CPLP é o mesmo, está assente em pilares, que são sólidos, mas é preciso dinâmica, que por esta ponte passem pessoas conhecimento, comércio, para não tornar-se obsoleta”.

 

“Energia é fundamental para o desenvolvimento”

Layout 1A “I Conferência Energia para o Desenvolvimento da CPLP”, assume, na perspetiva ampla da elaboração da nova visão estratégica para a própria organização, um papel crucial, “porque vai criar um dinamismo fundamental que tenho estado empenhado em imprimir na CPLP, o dinamismo económico. Nós queremos que, na nossa agenda comum, a vertente económica e empresarial sejam uma constante”.

“O tema da Energia é uma questão estratégica fundamental para o desenvolvimento económico e social dos Países de Língua Portuguesa. Todos nós, sem excepção, temos um considerável potencial energético. E, por isso mesmo, tendo em vista desenvolver esta capacidade, nas suas múltiplas vertentes, temos de começar a pensar em termos de definição de políticas, por parte dos Estados, para podermos traçar uma linha de cooperação vantajosa para todos. Essa é a nossa direção”.

Para Murade Murargy esta conferência “vai despertar na classe política dirigente da CPLP outra sensibilidade, porque até aqui tem sido vista como uma organização apenas para questões de língua, questões de cooperação político-diplomática, e pouco mais do que isso. E, como muitas vezes refiro, desde 1996 até hoje, muitos não se aperceberam ainda do crescimento da organização, de que esta está já num outro patamar que obriga a novas exigências e gera novos desafios”.

A CPLP é vista já por outros atores políticos e económicos com outra visão, nota o embaixador. “Não é por acaso que Japão, Turquia, Namíbia, Geórgia, Maurícias e Senegal quiseram entrar na CPLP e há vários outros candidatos. Não é por acaso que os embaixadores dos outros países, como os Estados Unidos, França, Holanda, Austrália, China, Egipto, Marrocos, a Alemanha ou Reino Unido vêm cá informar-se sobre o que se passa. Algum interesse nós temos. Alguma importância nós temos. É preciso que estas conferências despertem o gigante da CPLP que está aí a despontar”.

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“Que CPLP vamos criar nos próximos tempos? É esta a questão crucial…”

Todos os países têm uma capacidade enorme de recursos, mas, para o Secretário Executivo da CPLP, isso não basta. “Para que os países possam usufruir do potencial que têm, é preciso transformar esse potencial em bem-estar dos cidadãos dos nossos países. É necessário avaliar quais as capacidades de cada Estado e que contribuição cada um pode dar para dar corpo a uma política energética comum”.

Lembra que a queda dos preços do petróleo criou dificuldades a alguns países da CPLP, mas também traz a vantagem de fazê-los refletir sobre as políticas de desenvolvimento e definir melhor como inserir a riqueza energética numa política de desenvolvimento e de sustentabilidade. E a conjugação de esforços que a CPLP quer fazer no setor energético tem, num plano de conjunto, precisamente esse objetivo.

Murade Murargy espera que na I Reunião de Ministros da Energia da CPLP haja a definição de uma política que possa ser incorporada na visão estratégica de futuro. E que essa visão possa ser adotada no Brasil, na próxima Conferência de Chefes de Estado e de Governo, em 2016.

Coordenação Estratégica, dos Mares à Defesa

A Energia é um elo dos Estados da CPLP, mas muitos outros elos estratégicos existem que precisam de ser potenciados. E os mares, que encerram, aliás, petróleo e gás, são fonte de inúmeros recursos estratégicos, sendo importante que haja uma coordenação entre os Estados-membros para também melhor explorar esses recursos.

“Todos nós temos esse elemento mar, sobre o qual é preciso definir políticas e, no quadro da iniciativa “Semana Azul”, no início de junho, houve aqui na sede da CPLP uma Reunião Extraordinária de Ministros dos Assuntos do Mar para debater a cooperação neste ativo estratégico. No Mar, repousam enormes recursos. Há minerais e outros recursos marinhos, elementos fundamentais nos nossos países, que, nalguns casos, têm a pesca como a base da sua economia. Em Cabo Verde, por exemplo, a pesca do atum é uma base da economia local e, em Moçambique, enquanto não há exploração de hidrocarbonetos, temos o camarão, que nós moçambicanos chamamos petróleo de Moçambique”.

A coordenação entre Estados deve também passar pelas políticas de Defesa. “Não vamos criar uma força militar, uma força naval conjunta, mas podemos articular as nossas políticas, com vista a que a Defesa e Segurança tenham um papel nas questões de desenvolvimento económico e social”.

Em todo o esforço conjunto há que ter em conta também o potencial dos mercados regionais em que cada país se insere. “Aproveitando a força que a CPLP representa em termos políticos, com relações excelentes entre nós, cada país, tendo esta força por trás, pode ter maior protagonismo nos respetivos mercados regionais. E se tivermos, nos vários setores, consórcios CPLP, podemos aproveitar ainda mais o potencial destes mercados”.

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Aposta na Mobilidade

Muito une os Estados-membros da CPLP, mas para tirar vantagens dessa ligação, há que apostar na mobilidade. “Para o desenvolvimento da Comunidade é fundamental a questão da mobilidade. Não há comunidade sem mobilidade, sem que as pessoas possam movimentar-se mais facilmente entre Estados, sem que tenhamos um espaço de circulação para podermos fazer negócios em língua portuguesa”.

“Nós temos de criar as condições necessárias, esse é o papel dos governos, criar um ambiente de negócios para que as empresas possam atuar. E isso passa por as pessoas poderem circular livremente”.

“Esta é uma questão que está já a ser analisada, por todos os países, com a grande maioria já sensibilizada para esta necessidade; agora há que encontrar mecanismos. Estamos a abordar a questão em termos de grupos. Empresários, estudantes, docentes, investigadores, num primeiro grupo. Num segundo, artistas, jornalistas… Se o primeiro for bem sucedido, então vamos continuando. Mas também estou a incentivar acordos bilaterais de supressão de vistos e já há vários protocolos assinados neste domínio”.

“Temos de reconhecer e afirmar: o nosso desenvolvimento é desigual”

A mobilidade é fundamental também para a difusão do Conhecimento, para que todos os países possam caminhar ao mesmo nível. “Neste momento, temos de reconhecer e afirmar que o nosso desenvolvimento é desigual. Os nossos países têm um desenvolvimento desigual, a começar pela Educação”.

“Podemos desenvolver a cooperação empresarial e comercial entre os nossos países, mas temos de ter em conta que esse desenvolvimento só é possível se tivermos capacidade humana para essa missão, que é uma missão histórica. Se cada cidadão não estiver capacitado, estamos aqui a perder tempo. E as empresas também têm a responsabilidade social de participar na formação, não cabendo esse papel somente aos governos.

Sentimento de dever cumprido

Layout 1Para o embaixador, “é prematuro fazer um balanço de três anos de mandato”.

“Não me cabe a mim avaliar o meu trabalho, se fiz bem ou mal. Mas tenho até aqui um sentimento de dever cumprido. Aquilo que me incumbiram de fazer, projetar esta organização para mais longe do que ela já tinha chegado, foi cumprido. Temos, por exemplo, um novo Estado-membro, a Guiné Equatorial, que, depois de tanta discussão, está a provar o empenho em integrar a CPLP e até a surpreender os restantes Estados-membros pela velocidade e vontade em integrar-se nos nossos valores, e com inúmeras propostas em relação ao que querem desenvolver com a Comunidade. Como disse o Embaixador em Portugal, numa entrevista à vossa revista, a Guiné Equatorial voltou a casa”.

A estabilização da Guiné-Bissau foi outro dos grandes momentos do percurso já feito na CPLP por Murade Murargy. “Quando cá cheguei, a crise era forte, havia o problema de um governo ilegal, que tomou o poder pela força. Quis-me inteirar do processo da Guiné-Bissau e do que tinha sido feito até então pela CPLP”.

“A CPLP tinha-se limitado a condenar o golpe, tal como fez toda a comunidade internacional. E disse que não podíamos ficar apenas pela condenação, a Guiné-Bissau é um Estado-membro e fundador desta organização. Nós temos um papel, uma responsabilidade histórica para com a Guiné-Bissau e não podíamos permanecer apenas como simples espectadores. Tínhamos de agir. Então, propus-me visitar a Guiné-Bissau, onde reuni com todos os principais atores políticos, religiosos e com a sociedade civil.

Com a minha visita, os guineenses sentiram que a CPLP não os tinha abandonado. Conseguimos restabelecer a confiança do povo da Guiné-Bissau na nossa Comunidade”.

Em conjunto com as organizações internacionais parceiras foi definido um quadro de apoio à Guiné-Bissau que permitiu um diálogo permanente, com vista a criar condições para a realização das eleições.

“Nesse capítulo, é de louvar o papel de Timor-Leste, que apoiou financeira e tecnicamente o país, permitindo eleições credíveis, que tiveram lugar no ano passado. Um governo democraticamente eleito está a trabalhar na estabilização do país. E espero que assim se mantenha”.

Outro ponto marcante do mandato de Murade Murargy foi o lançamento do debate sobre a visão estratégica para a CPLP, “que não foi muito fácil, porque alguns dos nossos países tendem a pensar que a CPLP está bem como está, e ficam acomodados. Eu disse-lhes que a CPLP não está nada bem como está, e, felizmente, foi possível criar um espaço e debate. Os Chefes de Estado e de Governo em Díli decidiram criar um rupo
de trabalho para refletir sobre a nova visão estratégica. Estamos a trabalhar nisso para apresentarmos um documento final na próxima Cimeira em Brasília”.

“Aprendi muito”

A vasta experiência diplomática ajudou bastante, até aqui, o Secretário-Executivo na sua missão, mas reconhece que aprendeu muito na CPLP. “É verdade, aprendi muito na CPLP”.

“A carreira diplomática ensina-nos muito a encontrar o equilíbrio nas posições que assumimos, dá-nos a sensibilidade de como lidar com cada país. Esta experiência que eu tenho dá-me essa capacidade de ver as coisas de uma forma multi-lateral, e esta é uma casa com muitas sensibilidades. Há que saber como lidar com cada um”.

“Tenho de agradecer ao Presidente de Moçambique por me ter indicado para este posto, o qual vai ser um fim de carreira diplomática extraordinário, porque me permitiu ter uma outra visão das coisas, uma perspetiva global dos países de língua portuguesa, ter uma relação com outros grupos regionais, congéneres da CPLP, e, claro, também uma visibilidade que talvez não teria em outras circunstâncias”.

 


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