Aposta na Construção Sustentável da Ilha do Príncipe

Aposta na Construção Sustentável da Ilha do Príncipe

CEO Lusófono esteve em São Tomé e Príncipe, que tem passado despercebido na “redescoberta” de África, para melhor conhecer a dinâmica empresarial do país, através dos testemunhos dos CEO de empresas locais e de responsáveis governamentais. Descubra, ao longo das próximas semanas, os muitos fatores que há para apostar neste Estado lusófono, no “Especial: O charme escondido de São Tomé e Príncipe”.

 

Artiggo Gratis CEO Lusofono
Nestor Umbelina, presidente da construtora Quinta Maria Correia, em entrevista exclusiva a CEO Lusófono, fala da aposta da empresa em ser parceira na construção sustentável da Ilha do Príncipe, através de obras que respeitam a arquitetura tradicional em madeira e vão de encontro à necessidades de preservar a harmonia ambiental desta Reserva Mundial da Biosfera. 

A Quinta Maria Correia surge como um desafio.  Nestor Umbelina são-tomense, 38 anos, concluiu os estudos de advocacia em Lisboa e, depois de se ter dedicado à prática desta profissão em Portugal, regressou ao seu país, onde além de ter exercido Direito, teve também responsabilidades políticas, antes de apostar na carreira empresarial.

“Venho de uma família com nome em São Tomé e Príncipe, mas sempre fui um rebelde, e passei muito da minha vida de forma independente, a tentar encontrar pelos meus próprios meios um caminho. Fui muito cedo para Lisboa, onde vivi 12 anos, estudei sem bolsa, sem familiares lá e comecei desde muito cedo a trabalhar na construção em Portugal,  fazendo todo o percurso universitário em paralelo”, explica.

Depois do curso, Nestor Umbelina deixou a construção civil e dedicou-se à advocacia. Voltou para São tomé como advogado e estive também ligado á política, sendo Presidente da Assembleia Regional do Príncipe, durante uma legislatura, e depois Secretário do Governo Regional do Príncipe para o Ambiente, Recursos Naturais, Infra-estruturas e Ordenamento do Território.

“É enquanto  Secretário do Governo Regional do Príncipe que vi que não tínhamos aqui capacidade de resposta por parte de empresas locais para os vários desafios que se colocavam à ilha, em particular com o investimento da HBD (maior investidor privado da ilha e do país)”, nota.

“Para reabilitar uma casa, por exemplo, vinham empresas portuguesas, e enquanto Secretário do Governo Regional eu disse que esta situação tinha de ser invertida. Tentei incentivar um grupo de jovens a iniciarem esse processo de criação de empresas de construção locais, mas faltou-lhes organização”.

Por isso, depois de sair do governo, já no final da legislatura, em 2012, criou a Quinta da Maria Correia para dar resposta a esses desafios e desde então a empresa tem crescido: “Temos felizmente tido muito trabalho, sendo que, por uma questão de princípio, dada a minha passagem pelo Governo Regional, eu só tenho trabalhado com privados”.

Atualmente, dado o volume de trabalho, tem trabalhado sobretudo com a HBD, embora, antes disso tenha feito a construção do Hotel Belmonte, a experiência piloto, que levou, as restantes empresas perceber que  havia soluções internas para, pelo menos, fazer os trabalhos de reabilitação de moradias para habitação e escritórios que eram necessários.

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“Temos pouco mais de um ano, mas crescemos muito”

A empresa tem pouco mais de um ano, mas temos crescido muito, quase em exclusivo com atividade na Ilha do Príncipe (faz alguns trabalhos em São Tomé), com muito trabalho e Nestor Umbelina tem encarado cada novo projeto como novos desafios. Um muito recente foi a construção de uma nova urbanização para os pescadores da Ilha do Príncipe, uma obra  feita em três meses, de 12 habitações sociais, “seguindo a arquitetura tradicional, mas modernas e com muita qualidade”.

“Uma obra que devia demorar 7 meses foi concluída em 3 e tudo com recurso a mão de obra local, e que envolveu a criação de 112 postos de trabalho diretos”, salienta o empresário que salienta que “este é um dos projetos que mostra que a QMC está preparada para novos desafios”.

“Já não se justifica a aposta apenas em grandes grupos de construção”

Para Nestor Umbelina “já não se justifica a aposta apenas em grandes grupos de construção, porque localmente a QMC tem dado provas que justificam que quem contrata estes serviços dê preferência, sempre que possível, a empresas locais”.

“A QMC fez história no Príncipe e  mesmo ao nível do Governo Regional já fomos convidados várias vezes para trabalhos, mas tenho noção da realidade, e a dimensão da empresa não é ainda a suficiente para podermos ir para além do que os nossos olhos alcançam. Tivemos neste período vários convites, mas recusei-os para não criar dificuldades ao crescimento da empresa de forma sustentável”, explica.

Isto porque o maior foco da QMC é assumir um trabalho e completá-lo, dentro do prazo: “Estamos a começar, passo a passo, e convém que assim seja. A estrutura que temos permite-nos fazer o caminho que temos feito. Quando perceber que já temos uma estrutura maior e que podemos aumentar o nosso volume anual de 400 mil euros para um milhão, então nessa altura partirei para esse desafio, mas neste momento, sou cauteloso”.

Única a trabalhar com madeira

Com foco de atividade na Ilha do Príncipe, a QMC está especializada em construção civil, remodelações ou construção de base, e é a única empresa do setor na ilha que trabalha com madeira.

Há outras empresas com alguma estrutura, mas não há muitas mais empresas locais e, por isso, a esse nível quase se pode dizer, segundo o presidente da QMC, que não há concorrência. O mercado está aberto e há muito trabalho para os que já atuam na construção, sendo que um profundo conhecimento da realidade local é um fator muitas vezes decisivo.

“O Príncipe é um caso muito isolado, com uma realidade muito própria, que coloca desafios a empresas que trabalham na ilha, pelo que o conhecimento local é um fator muito importante”, explica Nestor Umbelina, que lembra casos de empresas de fora que não conseguiram terminar trabalhos na ilha, acabando por ser a QMC a ajudá-las a concluir esses trabalhos.

O empresário são-tomense acompanha sempre muito de perto a atividade da QMC. “Participo em tudo, atendendo que é uma empresa que está ainda na sua infância, defendo que o pai tem de estar muito perto da sua criança para que possa caminhar com solidez e este pormenor, acredito,  está muito ligado ao  sucesso da empresa. A minha proximidade o meu acompanhamento tem sido fundamental para esse sucesso, que já é reconhecido por todos”

Aberto a parcerias, em particular para fornecimento de madeiras

Nestor Umbelina está aberto a parcerias até porque, explica, há um desafio sério que tem de solucionar. “”O nosso maior forte a trabalhar é a madeira, mas a região do Príncipe é uma Reserva da Biosfera e o país não tem grande stock de recursos de madeira que possa ser usada. Ora, se a nossa realidade é a construção de casas de madeira temos de encontrar uma saída que passa pela importação de madeiras. Já estive no Gabão, mas o custo é muito elevado, por isso seria muito importante encontrar uma parceria para o fornecimento de madeira, porque as casas de alvenaria são demasiado caras para o Governo possa apostar nessa opção. Nós temos centenas de pessoas a precisar de casas. E por uma questão de recursos e por uma questão cultural devemos encontrar uma solução para a não atacarmos as nossas florestas”.

Noutro campo, se até aqui os grande grupos de construção internacionais que atuam na ilha não tinham ainda feito uma grande aposta nas parcerias com empresas locais, essa possibilidade hoje já existe, estando no horizonte da QMC uma parceria com o grupo português Mota Engil num novo projeto de construção que será lançado em breve, com suporte ainda de uma empresa francesa, em termos de know-how.

O presidente da QMC nota que este é um novo processo que será implementado e que irá possibilitar a aquisição desse conhecimento pela empresa, um passo fundamental ao seu crescimento e a irá deixar muito bem preparada e posicionada para quaisquer futuras parcerias.

Fortalecer classe empresarial são-tomense

 

Nestor Umbelina considera que o esforço comum dos empresários são-tomenses, reunidos na Associação Empresarial de São Tomé e Príncipe, pode ajudá-lo a encontrar parceiros internacionais. “É uma aposta que eu fiz e a associação é muito necessária para o fortalecimento e crescimento do tecido empresarial do país e todos os empresários vão beneficiar desse esforço conjunto”.

“Este é um país insular, muito esquecido, que não tem pressupostos ordinários para investir, como população, recursos e dimensão económica,  mas tem pressupostos extraordinários, tem tranquilidade, um bom ambiente de negócio, potencialidades que estão a tornar-se ouro, como a área do turismo sustentável que tem estado a abrir mercados. Não temos petróleo, diamantes ou ouro, mas temos uma potencialidade que atrai investidores e consumidores, dispostos a pagar para usufruírem destas condições de excelência”.


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