António Costa Silva: Pensar fora do “barril”

António Costa Silva: Pensar fora do “barril”

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António Costa Silva lidera a Partex Oil and Gas e defende que “é preciso pensar fora do barril de petróleo”, ou seja, ter conhecimento, visão abrangente e pensamento estratégico

 
 
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“A Partex é uma empresa muito especial. Foi fundada em 1938 por Calouste Gulbenkian, um dos grandes pioneiros da indústria petrolífera no Médio Oriente. Era uma personalidade extraordinária, que nasceu na Turquia, estudou em Londres no King’s College, voltou para o seu país para trabalhar para o Império Otomano, mas quando tinha 20 anos fez uma viagem a todo o Caucaso e, sobretudo, a Baku, no Azerbeijão. Estávamos na última década do século 19 e teve a visão de que o petróleo iria ser o fator dominante na matriz energética mundial no futuro. Por isso, passou o resto da vida a desenvolver parcerias, a ligação entre as autoridades locais e as companhias petrolíferas internacionais e criou a Partex”, conta António Costa Silva, presidente da empresa.

partex1Quando morreu, em Lisboa, em 1955, Calouste Gulbenkian legou a sua fortuna, a coleção de arte e a Partex à Fundação com o seu nome. E esta é a única acionista da empresa que, ainda hoje, gere participações deixadas pelo fundador no Médio Oriente, em Omã e Abu Dhabi.

Entretanto, a companhia diversificou-se, foi para o Cazaquistão, Brasil, Argélia e Angola, e em Portugal está envolvida em dois grandes projetos, na bacia de Peniche e na bacia do Algarve. Uma presença em vários pontos do mundo, que mantém o legado deixado por Gulbenkian de fazer a ponte entre o Ocidente e Oriente, num posicionamento que exige uma visão muito abrangente da indústria e um saber lidar com diferentes países, diferentes culturas. Algo com que António Costa Silva muito se identifica e que ganhou pela carreira que o levou a percorrer o mundo do petróleo, nos vários campos do mundo.

Produto das experiências de vida

“Uma pessoa é o produto de todas as experiências que tem tido na vida”, diz o Presidente da Partex, que nasceu em Angola, em Catabola, estudou em Luanda e depois licenciou-se no Instituto Superior Técnico de Lisboa, em Engenharia de Minas.

partex3Iniciou, em 1980, a carreira na Sonangol, num regresso a Angola, onde fez parte do Departamento de Produção, sendo responsável pelos estudos de reservatórios e execução de planos de produção, assim como análise e interpretação de testes de poços nos campos da bacia do Quanza em Angola.

Quatro anos depois, regressou a Portugal, para, durante 13 anos, exercer atividade na CPS (Companhia Portuguesa de Serviços), trabalhando, entre outros, no projeto Ta cis “Assistance for New Oil Field Development” apoiado pela Comissão Europeia e executado para a Oblast da Sibéria Ocidental (Tyumen).

Um novo desafio surgiu, em 1998, quando foi convidado para Diretor Executivo da Multinacional Francesa CGG (Compagnie Générale de Geophysique) e, a partir dos escritórios em Lisboa que liderou, coordenou projetos de Exploração e Produção no Médio Oriente (Bahrain), no México e na Rússia.

Seguiu-se a ida para Paris, em 2001, para trabalhar no Instituto Francês do Petróleo (IFP), no ramo empresarial da organização (BEICIP-FRANLAB), como Diretor de Engenharia de Reservatórios e Diretor de Operações. Uma experiência que levou a que fosse responsável e coordenador das equipas técnicas que executaram projetos nalguns dos maiores campos de petróleo e gás de todo o mundo: Hassi-Messaoud para a Sonatrach na Argélia, Cantarel para a Pemex no México, El Furrial, Zapatos e Bachaquero para a PDVSA na Venezuela, North Harad (Campo Gawhar) para a Saudi Aramco na Arábia Saudita e ainda os projetos de Gascharan e Salman no Irão.

Durante a presença em França, destaque ainda para o fato de ter sido selecionado pelo Tribunal Internacional da Câmara de Comércio de Estocolmo como o perito internacional encarregue de resolver a disputa jurídica e técnica entre duas das maiores companhias de petróleo do mundo, num campo ao largo do Mar da China.

A vertente a académica – é atualmente professor no IST (Instituto Superior Técnico de Lisboa) – tem desde sempre acompanhado o percurso empresarial de António Costa Silva, que procura, sempre que pode, dar aulas, “para mudar o quadro mental, pois é preciso pensar fora do barril de petróleo”. Um barril que ocupa, já há 35 anos, grande parte do seu dia-a-dia, com uma longa carreira à frente de empresas de prospecção e exploração de petróleo e gás e um terço desse percurso feito na Partex, depois de ter aceitado o convite de Rui Vilar, Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, para liderar a empresa.

Gerir a empresa como um relógio

partex2“A Partex é uma companhia que funciona como um relógio e tentamos geri-la como tal, tendo como principal objetivo gerar mais-valias para o nosso acionista que tem um perfil muito particular. Por isso, o que fazemos é gerir o portfólio de projetos, procurando um equilíbrio entre o risco, a rentabilidade e o crescimento potencial da companhia”.

António Costa Silva destaca que “a principal característica do modelo de gestão da empresa é termos a consciência de que há sempre um preço de pensarmos a curto prazo. E o fato da Fundação Calouste Gulbenkian ser o nosso único acionista permite que pensemos a longo prazo e coloquemos o enfoque na qualidade das decisões estratégicas”.

“No início, quando a indústria petrolífera se estava a desenvolver no Médio Oriente, já depois da morte de Calouste Gulbenkian, que tinha nesse desenvolvimento um dos grandes objetivos, o primeiro poço que foi furado em Omã foi um poço seco. A maior parte das grandes companhias internacionais saiu do consórcio, mas nós e a Shell mantive-mo-nos, solidários com o governo de Omã, e os poços seguintes deram algumas das grandes descobertas naquela região do mundo. Ou seja, é muito importante a persistência e não sermos iludidos por conjunturas. A aposta que fizemos no gás, quando este não era ainda o recurso valioso que é hoje, e mais tarde no LNG, que era também uma incógnita, mostra isto mesmo”.

Potencial Lusófono

António Costa Silva vê na CPLP um imenso potencial em termos energético: “Eu vejo a área da Energia como uma área extraordinária e, se houver uma plataforma de entendimento dos vários parceiros que atuam neste mundo, nos vários países lusófonos, cada um deles pode ganhar mais do que ganha hoje de costas voltadas”.

O Presidente da Partex dá o exemplo do Atlântico Sul, onde a exploração deep offshore em Angola e Brasil vai requerer nova tecnologia. “Aí deveria haver uma colaboração, por exemplo, com Portugal, onde as empresas de engenharia são reconhecidas mundialmente. Vão existir desafios ao nível da segurança das operações por tanto, o diálogo desta plataforma energética da CPLP pode levar ao desenvolvimento de uma arquitetura para gerir os riscos, trocar experiencias e fazer aumentar o conhecimento”.

Ideia simples mudou 150 anos de paradigma

038Para o Presidente da Partex existe hoje todo um conjunto de novas tendências que estão a reformatar e reconfigurar o mercado. “A meu ver a OPEP foi a última grande mudança estrutural que tivemos na indústria, é o cartel com maior sucesso da história, só que um cartel precisa de coesão, disciplina, barreiras de entrada e tudo isso hoje está a mudar. A situação atual está a provocar grandes dissidências na OPEP”.

“Durante 150 anos tivemos este paradigma: os hidrocarbonetos geram-se na rocha-mãe, depois vão para rochas reservatório. A revolução do xisto nos Estados Unidos, primeiro com o gás de xisto e depois com o petróleo de xisto, começou com a ideia muito simples de olhar diretamente para a rocha-mãe e, com isso, descobriu-se que 40% dos hidrocarbonetos permanecem nesta rocha, não migram para as rochas-reservatório. Ora, esta nova ideia mudou muita coisa e a OPEP demorou anos a reconhecer que a revolução do xis to nos Estados Unidos poderia ter impacto. Só num relatório em Novembro de 2011, pela primeira vez, referiu que se nada fizesse podia perder bastante”.

Esta realidade coloca novos desafios à Partex que se tem, no entanto, vindo a preparar. “Nós há muito que temos o conceito estratégico da companhia multi-energia. Temos o petróleo e gás, mas, desde há uma dúzia de anos, apostamos também nas energias renováveis”.

“Em termos estratégicos, temos feito uma forte aposta na investigação e desenvolvimento, em cooperação com universidades, e esse conhecimento dá-nos grandes vantagens competitivas. Além disto, apostamos na excelência do nosso trabalho e somos um parceiro discreto, que existe para resolver problemas e não para criá-los, e isso é muito apreciado nos consórcios em que participamos”.