Antonito de Araújo: “Timor-Leste está empenhado na afirmação global da CPLP”

Antonito de Araújo: “Timor-Leste está empenhado na afirmação global da CPLP”

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Timor-Leste assumiu em 2014 a Presidência da CPLP e tem incutido uma forte dinâmica, sobretudo no campo económico, colocando em prática as decisões tomadas na Cimeira de Díli. O Representante Permanente de Timor-Leste junto da organização, Embaixador Antonito de Araújo, em entrevista exclusiva a CEO Lusófono, fala sobre o empenho do país em ajudar a CPLP no desafio de alcançar uma crescente afirmação global.

“O tema da Presidência de Timor-Leste é a ‘A CPLP e a Globalização’ e temos dado o máximo por colocar em prática as decisões tomadas na Cimeira de Díli, de junho de 2014. Em particular, tem havido uma grande preocupação com os aspetos económicos e empresariais e com promover uma maior ligação entre os nossos países nestes campos, dando seguimento ao que foi a intenção expressa pelos Chefes de Estado e de Governo nessa cimeira histórica”.

Antonito de Araújo recorda que primeiro-ministro Xanana Gusmão, quando esteve em visita à sede da CPLP, em 2014, salientou o facto de a CPLP estar a aproximar-se dos 20 anos [que celebra este ano], sendo fundamental projetar a organização no plano global, com aposta na vertente da Economia a ser decisiva nessa afirmação. E lembra ainda “o trabalho de harmonia entre a Presidência, o Secretariado Executivo e o contributo da Confederação Empresarial da CPLP”, destacando, em particular, “o esforço do Secretário Executivo, embaixador Murade Murargy, para implementar esta visão”.

“Devemos promover os negócios em português”

Em fevereiro decorre, em Díli, uma reunião de Ministros do Comércio e Indústria da CPLP (22 a 24), logo seguida do Fórum Económico Global da CPLP (25 a 27). Para o diplomata timorense, “estes encontros refletem, precisamente, a ideia de que não podemos ficar apenas pelos aspetos da língua, mas aproveitar este fator de união para trabalhar outras vertentes, como é o caso da vertente económica”.

O Embaixador considera que as inúmeras iniciativas, conferências e fóruns empresariais, dinamizados pela CPLP, Confederação Empresarial da CPLP e União de Exportadores da CPLP, são um reflexo da aposta que tem estado a ser feita para promover os negócios em português, sendo fundamental, para esta dinâmica que se quer criar, ouvir os agentes económicos e procurar condições para responder aos desafios que existem, com vista a melhor dar resposta a este objetivo.

“Os empresários têm, por exemplo, colocado a mobilidade como uma das principais questões que urge resolver e solicitaram aos Estados-Membros vontade política para materializarem medidas, com vista a facilitar a circulação dentro da CPLP. E, sob a Presidência de Timor-Leste, temos um grupo de trabalho, criado no âmbito da X Cimeira de Díli, para estudar uma nova visão estratégica para a CPLP que inclui também esta a necessidade de estudarmos esta questão da mobilidade, sendo que, na próxima Cimeira de Chefes de Estado e de Governo, no Brasil, esperamos que os Estados-Membros possam aprovar esta nova visão”.

Nova visão estratégica para a CPLP

Antonito de Araújo considera que, por a CPLP ser já uma organização adulta, “chegou a altura de pensarmos no que há estrategicamente a mudar para melhor servirmos o interesse das comunidades, para termos uma organização mais forte, mais apta a responder aos novos desafios que se colocam aos Estados-Membros”. E salienta que é isso mesmo que se pretende com a nova visão estratégica para a CPLP.

Outro aspeto fundamental, dado o alargamento da Comunidade, com a entrada da Guiné Equatorial como Estado-membro e de Países Observadores Associados – havendo mais candidaturas já apresentadas -, é a forma como a organização poderá aproveitar este alargamento para reforçar o papel global da organização.

“Timor-Leste acredita muito na CPLP”

“Timo-Leste acredita muito na CPLP e no papel que pode ter para ajudar ao desenvolvimento de todos os países. É por isso que apostamos muito na nova visão estratégica pelo que a mesma poderá dar à organização, tendo sempre presente os desafios que se colocam a cada Estado em particular e a todos em conjunto”, afirma Antonito de Araújo.

“Infelizmente, o meu país assumiu a presidência numa conjuntura que tem sido um grande desafio. Faz parte da vida normal de uma organização, é verdade, há momentos de maiores dificuldades, mas a expectativa é conseguirmos ajudar-nos a ultrapassar esses desafios, sabendo que os mesmos incluem especificidades de cada país”.

Plataforma da CPLP para a região ASEAN

Lembrando que Timor-Leste está a caminho de entrar na ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático), Antonito de Araújo nota que “a CPLP tem de aproveitar as potencialidades que esta integração regional poderá oferecer, com Timor-Leste a poder afirmar-se como plataforma para a região”. Além disso, “o facto de estarmos na CPLP é também uma grande ajuda neste objetivo que temos”. salienta

“Somos um país pequeno, longínquo que tem de ter bons aliados para poder enfrentar os seus desafios e acredita que os Estados-Membros estão ao nosso lado para nos apoiar. E mão foi por acaso que Xanana Gusmão destacou a importância de desenvolver os laços económicos na CPLP, para responder aos desafios da globalização. Com esse desenvolvimento do pilar económico, com o alargamento da organização, Timor Leste será uma plataforma muito forte para a organização no futuro e para os seus Estados Membros aproveitarem as potencialidades da região da ASEAN”.

Balanço da Presidência

Na Presidência, além de procurar implementar os seus programas, Timor-Leste tem tido o papel de harmonizar interesses e ajudar cada Estado-membro, congregando os esforços dos demais, a superar os desafios, sem perder de vista a ambição de crescente afirmação da CPLP, reforçada na última Cimeira de Chefes de Estado e de Governo.

“A Cimeira de Díli ficará na história da CPLP como um momento de viragem, com a entrada de mais um Estado-Membro, de quatro Países Observadores Associados, e afirmação de uma vontade política de abrir a organização à sociedade e à economia”.

Antonito de Araújo nota que Timor-Leste “nesta primeira vez que esteve na presidência assistiu a marcos históricos, como a entrada da Guiné Equatorial, o retomar da normalidade da Guiné Bissau, a entrada dos quatro Estados Observadores Associados, e ainda o abraçar do programa da Presidência, de dinamizar o pilar da Economia, por parte dos Estados-Membros”.

Para o Embaixador, esse momento histórico e o assumir por Timor Leste da presidência da CPLP é um motivo de orgulho para todos os timorenses.

Antonito de Araújo

Antonito de Araújo, 51 anos, é licenciado em relações internacionais. Durante a ocupação indonésia trabalhou numa instituição bancária e colaborou com  as Nações Unidas na realização do  referendo sobre a independência de Timor-Leste, que decorreu a 30 de Agosto de 1999,  tendo ainda trabalhado na administração da delegação da ONU no país até ingressar no Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Fez parte do primeiro grupo de 50 funcionários do ministério, começando como Diretor da Administração de Finanças, tendo depois sido nomeado Diretor de Assuntos Consulares.

Entre 2007 e 2010 foi conselheiro da embaixada de Timor-Leste, em Lisboa.

Regressou ao seu país e assumiu o cargo de Diretor Geral dos Assuntos Consulares, até voltar para Portugal para assumir a cargo de Embaixador junto da CPLP.

Neste primeiro posto com embaixador, Antonito de Araújo revela que tem “aprendido muito na CPLP”, em particular “com os colegas embaixadores já com muita experiência”. Tem sido, por isso, “uma experiência muito enriquecedora”.



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